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26 de junho de 2013

Um atalho leva a outro

Antônio se viu entre duas situações, mudar de casa ou acordar mais cedo. Acontece que fecharam o atalho que ele pegava para ir ao trabalho, e sem a ajudinha de todos os dias levaria mais de duas horas pra chegar. Como ele morava de aluguel não viu problema nenhum em morar em outro lugar, mas os apartamentos daquele lado da cidade custavam o triplo. Em compensação ele poderia dormir duas horas a mais que se permanecesse na mesma casa.

O que Antônio fez? Pediu demissão. Ele nem recebia muito mesmo. Arrumaria outro emprego que não exigisse tanto, manteria seu apartamento barato e sua vida fácil. 

23 de maio de 2013

Triângulo Amoroso. A história sobre uma mulher, um homem e mais alguém.


Te prometo que tentarei fugir dos clichês das histórias de amor. Mas o que poderíamos dizer sobre o amor? É um verbo? Uma ação? Sentimento? Prazer? Bom, ouso dizer que seja uma mistura de todas essas coisas. É difícil escrever sobre amor quando não se está vivendo uma fase “romântica”. Mas não é por não termos ido a Disney que não conhecemos o Mickey, certo? E toda boa história merece ser contada.
Dito isso, vamos ao que interessa. Tinha essa mulher, cabelos loiros e olhos castanhos. E tinha esse homem, alto, moreno, cabelos lisos e pretos. O cara, podemos chamá-lo de “Não sei”, e mulher, nossa “Por quê” eram um casal feliz. Ou até a chegada da terceira personagem, conhecida como “Que tal”.
Não Sei era um cara divertido, inteligente, independente e aparentemente fiel. Um homem tem direito de continuar tendo uma vida social após o início de um namoro, eu sei. Na verdade é um dever! E seguindo esse mandamento Não Sei manteve o futebol todas as quintas com os amigos, as saídas para os barzinhos com o pessoal do escritório e algumas paquerinhas ao longo desses momentos de lazer, afinal ele estava comprometido e não cego. Já Por quê enxergava no namorado o verdadeiro e único amor pra vida toda. Fazia tudo para agradar o “benzinho” e até se afastou das amizades masculinas porque ele não gostava. Relação bem equilibrada né?
Em uma dessas saídas Não Sei conheceu Que Tal, uma mulher atraente, com um belo par de pernas, cabelos vermelhos e pele cor de porcelana. Ah, caro leitor, há de se imaginar que como todo homem ele se viu rapidamente atraído por aquele oásis parado na sua frente. O fato é que a partir daquele dia os dois começaram a conversar frequentemente. Porém deixemos claro que Por quê não sabia desse contato entre os dois.
Mas como todos aqui também sabem, intuição feminina é uma coisa que ataca a mente das mulheres e dificilmente está errada. E dadas as situações Por quê começou a desconfiar do benzinho, e quando menos esperava estava procurando no celular do moço alguma coisa que pudesse comprovar a traição. E aí entra o dilema da história, ela nunca encontrou nada. Mas a pulga continuava ali, fazendo-a pensar que o futebol ou a cerveja foram trocados por uma noite com a ruiva atraente. E nenhum relacionamento sobrevive à desconfiança. Ninguém aguenta o (a) namorado (a) ligando toda hora, suspeitando de tudo. Convenhamos, quando o namoro está chato qualquer par de pernas na grama do vizinho parece bem mais convidativo.
Em suma, o relacionamento se desgastou e acabou, como o fim de parte das histórias de amor. Mas uma coisa que Por quê nunca soube de verdade foi se Não Sei a havia traído de fato. Que tal nem foi afetada pela decisão do casal, a menos que essa hora esteja com o jovem galã. Ele sofreu um pouco, mas se sentiu aliviado por estar livre de um namoro sufocante. E ela, bom, ficou se perguntando se tinha errado em seu julgamento e perdido o homem da sua vida.
O que essa história nos ensina caros amigos? Ciúme sem fundamento é coisa de gente que procura o porquê de cada passo do outro. Sabe, gente paranoica cansa, mas gente sem atitude também. Ou você acha que nosso amigo Não Sei recebeu esse nome por acaso? Alguém que entra em um relacionamento e continua sem assumir um compromisso com o companheiro, sem saber o que quer, vai acabar sozinho também.
O resumo é esse: sempre existirá um (a) Que Tal por aí pra te fazer questionar por que não? E você, quem você vai ser nessa história?

1 de março de 2013

Um outro olhar.

É claro que o preconceito existe, e eu diria que às vezes é maior por parte de nós mesmos que dos outros. Preconceito é criarmos uma opinião sobre um tema sem nem conhecê-lo como de fato ele é. Quando digo que em alguns casos somos nós mesmos os vilões de nossas vidas é porque as vezes não conhecemos a realidade de nossos próprios problemas e já os julgamos como insolúveis, impossíveis e simplesmente não procuramos nenhuma solução. Por que comecei dizendo essas coisas? Bem, vou lhe contar minha história e você entenderá.
Já dizia aquele velho ditado: “A grama do vizinho sempre parece mais verde”, e realmente a vida dos outros sempre pareceu melhor que a minha. Sofri um acidente de carro quando tinha 15 anos e devido a uma lesão medular fiquei paraplégico. Você pode imaginar que não foi nada fácil enfrentar minha adolescência preso em uma cadeira de rodas. Não namorava ninguém e nem saia de casa a não para escola (coisa que meus pais me obrigavam a fazer). Passei cinco anos me sentindo um peso para minha família, achando que seria melhor ter morrido a ficar deficiente.
Não vou te contar o que passei após o acidente, como eram terríveis as sessões de fisioterapia ou como foi achar que poderia voltar a andar e no fim descobrir que isso não passava de uma fantasia na minha cabeça. Não, não vou te contar de como fiz meus pais e amigos sofrerem porque só conseguia sentir pena de mim mesmo e como fui egoísta por achar que todos deviam fazer o mesmo. O ser humano tem a mania de se menosprezar em relação a quem quer que pareça viver melhor, e enquanto eu não parei de me sentir inferior ao resto do mundo não consegui seguir a diante. Sim, eu vou te contar como superei essa auto piedade e comecei e enxergar o quanto estava perdendo da vida enquanto permanecia preso com meu preconceito.
Quando tinha vinte anos assisti a uma reportagem que falava sobre o trabalho de umas artesãs no Nordeste. Achei aquelas mulheres fantásticas, muitas delas sustentavam a família inteira só com o dinheiro vindo do artesanato, e apesar das dificuldades financeiras que enfrentavam durante todo o documentário falaram apenas das coisas que já tinham conquistado graças ao artesanato, e não do que ainda faltava. Não sei por que aquela reportagem mexeu de uma forma diferente comigo, e passei a me questionar por que eu reclamava tanto dos meus problemas e não percebia o que de bom ainda me restava.
Decidi que mais histórias como a daquelas mulheres e tantas outras de exemplos de determinação deveriam ser mostradas às pessoas. Resolvi fazer faculdade de jornalismo e me dedicar a encontrar histórias que valessem a pena serem contadas. Comecei a produzir vários documentários até que um dia um colega de classe me perguntou por que não produzia minha própria história. Eu tinha passado a aceitar melhor minha condição física, porém ainda existiam muitas barreiras que faziam com que eu não me achasse digno de compartilhar meus sentimentos com o mundo. Por fim acabei sendo convencido a gravar o documentário e surpreendentemente eu tinha muito mais a dizer do que pensava.
Foram sete meses de produção contando o que eu tinha passado ao longo daqueles anos após o acidente e o que a paraplegia tinha feito comigo. Percebi que eu não devia me achar um coitado por estar naquela cadeira de rodas, um injustiçado que foi fadado a passar o resto da vida dependendo de um objeto pra se locomover. Eu tinha sido abençoado com a chance de reconstruir minha vida. Provavelmente eu não seria a mesma pessoa se não tivesse enfrentado todos aqueles obstáculos. Comecei a me enxergar como aquelas pessoas que entrevistei antes, como alguém que assim como todo mundo tem uma dificuldade e tenta superá-la.
A deficiência não deixou de me incomodar, e nem sei se isso acontecerá um dia. Mas o que antes eu via como um impedimento para viver hoje me faz questionar “Como posso trazer isso à minha vida?”. Eu entendi que por mais verde que seja a grama do meu vizinho ele nunca estará totalmente satisfeito com seu jardim. Achamos defeitos e reclamamos de tudo, contudo se aceitarmos que nada na vida é realmente perfeito quem sabe podemos parar de nos enganarmos e nos escondermos por trás de tantas máscaras. Afinal, todos nós temos boas histórias que merecem ser contadas.
Meu nome é Otávio, tenho 25 anos, sou jornalista e paraplégico. Minha deficiência é a última na minha apresentação, porque ela é a última que me impede de fazer qualquer coisa que eu queira. 


26 de janeiro de 2013

Jeitinho Brasileiro


- Óh, esse aqui é o autografado. Custam só cem reais, mas como o senhor é gente boa a gente fecha em cinquenta.
- Mas aqui diz que foi fabricado na China, com validade até 2000. Isso não faz sentido.
- O Senhor por acaso tá dizendo que minhas mercadorias são fajutas? Assim o senhor me ofende.
- Mas é que não é possível.
- Veja bem, o senhor não queria um carrinho de fórmula 1 assinado pelo Senna pra dar pro seu filho? Pois bem, esse foi o que arrumei. O moleque vai fazer quantos anos mesmo?
- Nove.
- Pois então, o garoto nem tinha nascido quando o cara morreu. Tô fazendo um preço bom pro senhor, aproveita.
- Tá bom, mas só se o capacete vier junto, e autografado também.
- Pra autografar aumenta vinte e cinco reais.

16 de janeiro de 2013

Mais que uma princesa

Ninguém acreditava que Alice fosse capaz de alguma coisa além de encantar os homens com sua beleza. Ela tinha um rosto angelical, uma pele clara e macia como nuvens, seus cabelos loiros eram tão lisos que caiam sempre em seus olhos castanhos, e seu corpo perfeitamente esculpido fazia todas as curvas combinarem entre si. Os homens sempre que passavam por Alice se encantavam com a beleza moça, e depois de alguns minutos ao seu lado já se apaixonavam. As mulheres, mesmo que sentissem ciúmes a admiravam por conseguir enfeitiçar quem quer que fosse tão rapidamente.

Mas Alice se sentia vazia por dentro, como se faltasse alguma coisa para que ela fosse quem sempre sonhara, ela nunca desejou todos aqueles olhares. Sempre quisera ser professora, mas sua mãe a convencera de que com tamanha beleza pudesse fazer algo mais da vida, e o que seria exatamente “fazer algo mais da vida?”. Ela não sabia fazer nada além de ser bonita. Então um dia Alice percebeu o que faltara em sua vida: uma paixão. Não entre homem e mulher, porque isso ela poderia ter se quisesse, mas uma paixão exclusiva dela, um talento que talvez nunca fora descoberto. Alice descobriu que para ser feliz não bastava encantar a todos enquanto dentro de si mesma algo estava incompleto.

Ela finalmente criou coragem e começou a dar aulas particulares, e aquelas aulas a preencheram mais que milhões de festas em que já estivera. Alice encontrou prazer, e sua paixão pela vida se tornou mais um de seus encantos, o mais belo por sinal. Os homens não deixaram de amá-la, só que agora também a admiravam.

“Amo você de qualquer jeito- mesmo que não exista nenhum 
eu ou nenhum amor, ou mesmo nenhuma vida, amo você.”
Mulher para homem, por carta.


29 de novembro de 2012

Zigue-zague


Marina morava com Letícia, que sempre reclamava de tudo.
Letícia queria a casa amarela e Marina gostava mais de rosa, mas namorava Fernando que também detestava.
Fernando parou de visitar Marina, que de tanto ficar só começou a gostar de João, o vizinho.  
João gostava de Letícia, que só queria saber de trabalhar e não gostava de ninguém.
Fernando terminou com Marina, que foi morar com João, que esqueceu Letícia, que acabou sozinha por escolher demais.

1 de outubro de 2012

Incapacidade Masculina

- Isso é só pra você tá?
- Ta bom, mas anda logo!
- Calma, é difícil.
- Vai rápido!!
- Se você não parar de falar eu não me concentro.
- Ta... parei.

João! Maria! Cadê vocês?!

- Droga, ela ta vindo! Acho que descobriu tudo.
- Também né, você roubou a caixa inteira.
- Claro, você não faz nada direito. Podia precisar de muitos.

Meninos, venham aqui!!

- To quase lá... Droga, estourou.
- Eu sabia que você não ia conseguir fazer essa bola de chiclete!
- Desculpa Maria.
- Homens, tão inúteis as vezes!


24 de setembro de 2012

Escadas e seus efeitos

Certa noite três amigos estavam no bar e, como sempre, entre uma conversa e outra tomavam suas doses de cerveja. Fazendo as conversas cada vez menores e as doses consequentemente maiores, os amigos todos de meia-idade, começaram a lembrar das coisas que existiam na sua época de juventude e que hoje não existem mais. 

- Vocês lembram de como os filmes na nossa época eram melhores? - Disse o cavalheiro sentado em frente a janela.
- É verdade. E as novelas também! Antes adorava assistir novela com a Judite, hoje nem horário político aguento do lado daquela mulher.
- No meio das brigas alguém sempre caia da escada e morria. Que saudade das escadas!
- Sabem de uma coisa, sempre gostei de loiras. - Disse o que segurava a garrafa de cerveja.
- Mas se casou com uma morena. Eu por exemplo, casei com a Judite que sempre foi morena, e gosto dela assim.
- É verdade. - Ele chamou o garçom pra que servisse mais uma dose aos três. - Mas sempre fui apaixonado por uma loira. Lembram da Helena?
- Helena? Que Helena? - Perguntou o amigo que ainda olhava a janela.
- Aquela que tinha os cabelos lisos, longos e loiros. Era alta e com os olhos cor de mel. Que mulher linda!

Os dois amigos se olharam:
- Conheceu essa ai que ele ta falando?
- Não que eu me lembre. - E ele não lembrava de muita coisa naquela hora.
- Nem eu.

Mas o outro continuou:
- Nos víamos toda semana, sempre durante a  noite. Nossos encontros eram intensos e envolventes.
- Lembro de uma Helena que era muito bonita. Mas não pode ser a mesma.
- Ela era demais. Pena que depois de um tempo foi embora. Nem me lembro o por quê.
- A Helena que me lembro era de uma novela das oito, e morreu caindo da escada.

Os três pensaram por um minuto e deram mais um gole na cerveja. 

- Uhm.. Por isso ela sumiu da minha vida.






10 de setembro de 2012

Dose Única


Marcaram um encontro e esperaram o fim do jantar quando os dois estavam um pouco alterados por causa da bebida para finalmente conversarem. Ela, como sempre, demonstrava timidez e um pouco de insegurança. Ele, ao contrário, era sempre muito falante e rapidinho conseguia comandar o ritmo da conversa. Ela decidida a fazer diferente naquela noite, antes que ele percebesse começou a se despir. Ele, chocado parecia não acreditar que ela sempre tão distante tivesse tanto guardado. E então ela deu início ao longo e delicado ritual.
 Primeiro, tirou a timidez, essa decidiu deixar em casa caso contrário não sairia um palavra sequer da sua boca. Feito isso, começou a falar, e pela primeira vez estava ditando o ritmo e se sentia maravilhosa por isso. O que ela disse? “Farei isso uma única vez, e espero que preste muita atenção.” Ele com os olhos fixos no dela, abriu a boca e num súbito momento ela o puxou para perto de si e disse: “Hoje é a minha vez.”
Depois da timidez, tirou o medo e junto com ele o orgulho. "Hoje, pela primeira vez, estou confessando isso a você. Não espero que me retribua, ou que diga que sente o mesmo apenas por reflexo. Depois de muito protestar internamente, hoje eu assumo que gosto de você. Não o gostar do tipo podemos conviver juntos, gosto do jeito de que quando estou limpando a casa eu me pego pensando em você." Mais uma vez ele tentou falar e novamente ela o interrompeu: "Por favor, deixe que eu termine." Ele assentiu com a cabeça e ela continuou.
A terceira coisa a tirar foi o pudor. Nesse ela demorou mais pouco, parou, respirou fundo e o desabotoou. E mais uma vez falou: "Desejo cada parte de você, mas hoje não vim aqui para tê-lo. Quero apenas que saiba o que sinto, e se sente o mesmo, ótimo. Se não, não me arrependerei jamais de ter dito. Espero que saiba que de alguma forma, juntos ou separados eu me importo com você”.
Por fim, ela estava nua, e quando terminou de falar se reaproximou dele e com um leve toque em seus lábios se despediu. Ele anestesiado correspondeu ao doce e beijo e perguntou: "Posso falar agora?" Ela, demostrando uma expressão calma e segura discordou e disse: "Hoje eu me entreguei a você, e quero que pense apenas". Ela saiu fechando a porta do quarto.
Ele suspirou e disse para si mesmo: "Uma ótima dose."



30 de agosto de 2012

Sofá Vermelho

Eu, Luiz, no auge dos meus 29 anos nunca tive uma grande mudança na minha vida. Moro no mesmo apartamento há oito anos e sequer mudei os móveis de lugar. Completo 30 anos daqui a duas semanas e percebi que não fiz nada de importante até hoje. Sempre me considerei um cara tranquilo. Quer dizer, não fumo, bebo só em ocasiões especiais e nunca matei ou impedi alguém de fazer qualquer coisa. Sou praticamente invisível.
Não tenho um emprego decente, nem uma namorada e ainda por cima meu sofá é horrível. Um homem precisa de um sofá confortável para passar suas tardes entediantes de domingo assistindo aos jogos de futebol na TV. Mas apesar de não conseguir um novo emprego ou a mulher dos meus sonhos, ainda posso comprar um novo sofá. E foi isso que decidi fazer quando acordei naquele sábado. A semana tinha sido horrível, queria que meu chefe e todos daquela empresa morressem. Além disso, no dia seguinte o São Paulo jogaria e eu me recusava a assistir outros jogos naquele sofá horrendo. Não aguentaria mais uma derrota do time e nem aquele troço que ocupava espaço na minha sala.
Sai de casa e entrei na primeira loja de móveis que vi decido a escolher o novo sofá o mais rápido possível. O vendedor me mostrou um sofá vermelho com três lugares e estofado de couro. O que me chamou a atenção naquele sofá não foi só a maravilhosa sensação que tive quando sentei nele, mas sua cor. Sabe, como bom São Paulino que sou, o vermelho está entre uma das minhas cores preferidas, se é que posso dizer isso. Mas aquele vermelho cor de sangue me impressionou e em menos de meia hora já tinha comprado aquele móvel confortabilíssimo.
Quando o tão esperado sofá chegou o entregador começou a me fazer algumas perguntas estranhas querendo saber o porquê de ter comprado aquele modelo.
- O senhor sabe que esse é um modelo limitado, não sabe? – perguntou o entregador
- Bem, não sabia até agora.
- Só foram feitos dois modelos desse sofá na cor vermelha. Infelizmente o outro cliente faleceu duas semanas depois da compra.
- Nossa! Daqui duas semanas completo 30 anos e espero não receber a morte como um presente de aniversário.
- Sabe, o senhor me parece um bom homem. Talvez seja melhor eu lhe contar uma breve história e então quem sabe o senhor não desiste de ter o sofá.
- Pouco provável. Mas pode falar.
Foi ai que o misterioso entregador me contou que ele na verdade não era entregador coisa nenhuma. O cara foi casado durante dez anos e um dia encontrou sua mulher o traindo no sofá de casa com um colega de trabalho. Decidido a acabar com a vergonha que sentia, ele matou a mulher e o amante e decidiu fazer dois sofás em homenagem ao casal. Um com três lugares (o meu) e outro com dois. A explicação para o vermelho cor de sangue, bem era sague mesmo. Ele pegou o sangue da mulher e do amante e “tingiu” o tecido do estofado. De acordo com ele, o sofá que comprei era tingido com o sangue da mulher que sempre preferiu o com mais lugares.
Explicado o assassinato, ele contou que decidiu matar quem comprasse os sofás porque ninguém merecia estar na presença da ex-mulher ou do amante. Que o comprador da outra metade do sofá lutara um pouco por sua vida, mas que no fim acabou morrendo e o sofá foi queimado.
- Eu espero que o senhor entenda minha necessidade de acabar com isso, Sr. Luiz.
- Na verdade não entendo, mas também não o julgo – A esse ponto já estava tremendo e pensando em chamar a polícia.
- Agora que o senhor conhece a história do sofá não posso deixar que viva. Não ao lado de Magda. – Magda devia ser a esposa. – O senhor já amou, sabe o que quero dizer.
Quando ele me disse isso senti muita pena de mim mesmo. Tudo bem que o cara é um assassino, mas ele realmente amava sua mulher. A amou a tal ponto de não conseguir se imaginar sem ela. Por um momento senti que a minha vida até então inútil poderia servir para alguma coisa. Eu podia libertar aquele homem de sua dor e deixá-lo viver apenas com as boas lembranças dos momentos entre ele e Magda.
- Não converso com minha família e nunca amei de verdade – respondi friamente.
- Então o senhor não tem nada a perder. Por favor, deixe-me matá-lo e lhe garanto que Magda será livre finalmente.
São Paulo perdeu. Odeio meu chefe.
- Aposto que ninguém que eu conheço morreu por um sofá. Não antes dos trinta pelo menos.
- Estou ficando impaciente Sr. Luiz.
- Ok. Liberte Magda e queime este sofá.
Assim, eu, Luiz de 29 anos passei de um cara sem graça a alguém que libertou um homem de um amor. Quem diria que um sofá mudaria tanta coisa.


7 de agosto de 2012

Leitura Rápida

Querido Nicolas,
Comecei a viajar enquanto lia as páginas do seu livro. Folhei com cuidado pra não perder nenhum detalhe. Era muito importante saber o que você pensava. Confesso que bateu uma insatisfação por não conseguir decifrar as entrelinhas naquelas palavras, mas tive também certo um prazer por saber que em cada capítulo tinha um pedaço meu
Sinto lhe informar que não foi por você que cheguei aonde estou, mas graças a você fiz coisas que nunca pensei em fazer. Sou como sou porque andei por aqueles caminhos, porque vi as coisas que vi, e porque hoje li você.


19 de julho de 2012

A Vizinha

Ah, minha vizinha. Vocês deviam conhecê-la! Cabelos longos, olhos castanhos, corpo escultural. Olha, poucos tem uma vizinha assim, mas infelizmente quase não nos falamos. Pele clara cor de porcelana, jeito de menina sensível mas com atitude de mulher. Eita vizinha! Sorte dela, ou minha, que não nos conhecemos melhor. Já parei de contar quantas noites fiquei espiando ela da janela, esperando que chegasse em casa só pra poder olhar como ela estava naquele dia. Sorte de quem a conhece. 
Eu posso até ficar quietinho, mas posso reivindicar sua atenção também. Poxa vizinha, olha pro outro lado da rua só uma vez! Deixa eu amassar essa sua roupa de moça, olhar nesses seus olhos devoradores, me encaixar nesse seu corpo. Você vai gostar do clima, você pode até se apaixonar. Fala só seu nome e o resto a gente descobre junto. Sei onde posso te encontrar, agora só olha pro lado e você também me encontra.