É
claro que o preconceito existe, e eu diria que às vezes é maior por parte de
nós mesmos que dos outros. Preconceito é criarmos uma opinião sobre um tema sem
nem conhecê-lo como de fato ele é. Quando digo que em alguns casos somos nós mesmos
os vilões de nossas vidas é porque as vezes não conhecemos a realidade de nossos
próprios problemas e já os julgamos como insolúveis, impossíveis e simplesmente
não procuramos nenhuma solução. Por que comecei dizendo essas coisas? Bem, vou
lhe contar minha história e você entenderá.
Já
dizia aquele velho ditado: “A grama do vizinho sempre parece mais verde”, e
realmente a vida dos outros sempre pareceu melhor que a minha. Sofri um
acidente de carro quando tinha 15 anos e devido a uma lesão medular fiquei
paraplégico. Você pode imaginar que não foi nada fácil enfrentar minha
adolescência preso em uma cadeira de rodas. Não namorava ninguém e nem saia de
casa a não para escola (coisa que meus pais me obrigavam a fazer). Passei cinco
anos me sentindo um peso para minha família, achando que seria melhor ter
morrido a ficar deficiente.
Não
vou te contar o que passei após o acidente, como eram terríveis as sessões de
fisioterapia ou como foi achar que poderia voltar a andar e no fim descobrir
que isso não passava de uma fantasia na minha cabeça. Não, não vou te contar de
como fiz meus pais e amigos sofrerem porque só conseguia sentir pena de mim
mesmo e como fui egoísta por achar que todos deviam fazer o mesmo. O ser humano
tem a mania de se menosprezar em relação a quem quer que pareça viver melhor, e
enquanto eu não parei de me sentir inferior ao resto do mundo não consegui
seguir a diante. Sim, eu vou te contar como superei essa auto piedade e comecei
e enxergar o quanto estava perdendo da vida enquanto permanecia preso com meu
preconceito.
Quando
tinha vinte anos assisti a uma reportagem que falava sobre o trabalho de umas artesãs
no Nordeste. Achei aquelas mulheres fantásticas, muitas delas sustentavam a
família inteira só com o dinheiro vindo do artesanato, e apesar das
dificuldades financeiras que enfrentavam durante todo o documentário falaram
apenas das coisas que já tinham conquistado graças ao artesanato, e não do que
ainda faltava. Não sei por que aquela reportagem mexeu de uma forma diferente
comigo, e passei a me questionar por que eu reclamava tanto dos meus problemas
e não percebia o que de bom ainda me restava.
Decidi
que mais histórias como a daquelas mulheres e tantas outras de exemplos de
determinação deveriam ser mostradas às pessoas. Resolvi fazer faculdade de
jornalismo e me dedicar a encontrar histórias que valessem a pena serem
contadas. Comecei a produzir vários documentários até que um dia um colega de
classe me perguntou por que não produzia minha própria história. Eu tinha
passado a aceitar melhor minha condição física, porém ainda existiam muitas
barreiras que faziam com que eu não me achasse digno de compartilhar meus
sentimentos com o mundo. Por fim acabei sendo convencido a gravar o
documentário e surpreendentemente eu tinha muito mais a dizer do que pensava.
Foram
sete meses de produção contando o que eu tinha passado ao longo daqueles anos após
o acidente e o que a paraplegia tinha feito comigo. Percebi que eu não devia me
achar um coitado por estar naquela cadeira de rodas, um injustiçado que foi
fadado a passar o resto da vida dependendo de um objeto pra se locomover. Eu
tinha sido abençoado com a chance de reconstruir minha vida. Provavelmente eu não
seria a mesma pessoa se não tivesse enfrentado todos aqueles obstáculos.
Comecei a me enxergar como aquelas pessoas que entrevistei antes, como alguém
que assim como todo mundo tem uma dificuldade e tenta superá-la.
A
deficiência não deixou de me incomodar, e nem sei se isso acontecerá um dia.
Mas o que antes eu via como um impedimento para viver hoje me faz questionar “Como posso trazer isso à minha vida?”. Eu
entendi que por mais verde que seja a grama do meu vizinho ele nunca estará
totalmente satisfeito com seu jardim. Achamos defeitos e reclamamos de tudo, contudo
se aceitarmos que nada na vida é realmente perfeito quem sabe podemos parar de
nos enganarmos e nos escondermos por trás de tantas máscaras. Afinal, todos nós
temos boas histórias que merecem ser contadas.
Meu
nome é Otávio, tenho 25 anos, sou jornalista e paraplégico. Minha deficiência é
a última na minha apresentação, porque ela é a última que me impede de fazer
qualquer coisa que eu queira.
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